Era flor em botão
O jardineiro não a via
Não a regava
Não a tratava
Nem sequer sentia
O aroma tão suave
Que dela se desprendia.
Fechada, mirrada
Sentia a vida fugir
E sonhava com o dia
Em que pudesse abrir
As pétalas aveludadas
Espalhar o perfume
Que ardia como lume
No seu caule ondulante
Que se vergava ofegante
Tendo pena de morrer
Sem a vida conhecer.
Outro jardineiro passou
O botão suspirou
Sem esperança, amargurado.
O homem ficou parado
Espantado, intrigado
Com o olor inebriante
Que assim o envolvia.
Viu o botão mirrado
Já quase meio inclinado
E sentiu-se revoltado
Pois de flores conhecedor
No botão viu a rosa
Fragrante, esplendorosa
Que mal tratada morria.
Fora um acaso feliz
Que o desviara do caminho
Que sempre percorria.
Com extremo carinho
Misto de dor e alegria
Pela raiz a arrancou
Apertou-a contra o peito
E depois com muito jeito
Noutro jardim a plantou.
O adubo foi amor
A água seiva da vida
E a flor renascida
Em colorida explosão
Vermelha como o pecado
Rubra como a paixão
Numa manhã radiosa
Transformou-se numa rosa.
Maria Ivone Vairinho
( Livro da Dor e da Esperança)
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