UM POUCO ...

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quarta-feira, 1 de julho de 2009

ÁRVORE DA VIDA

Duas raízes beirãs que se encontraram
Uniram-se em forte abraço e rasgaram
A terra granítica, emergindo
Em tronco sólido, nele surgindo
Três ramos pequenos em floração.
Sofreram sol ardente do Verão
Descansaram em Outonos doirados.
Pelas neves e ventos açoitados
Força e resistência foram criando
As suas raízes também afundando
Na Terra-Mãe, naquele úbere chão
Rico de nascentes, farto de pão.


Era Natal, cantavam-se as janeiras
Quando secou, morreu a raiz primeira.
Ramo verde, tronco forte e sereno
Tão cedo deixou os ramos pequenos.
Mas a outra raiz, primeira também
Foi tronco, foi seiva, foi pai e mãe.


Pelo ar da montanha revigorados
Pela água dos riachos saciados
Os três ramos estenderam os braços
Formando uma cadeia de nós e laços
Para três novos ramos procurarem
Com eles se enlaçarem, germinarem
Seis ramos que na rocha implantados
Ao céu ergueram os braços alados.


Entre risos e lágrimas crescendo
Água pura das neves iam bebendo
Dançando em loucas rodas de vento
Quando a Serra prepara o casamento
Põe tiara de brilhantes, veste arminho
E o alvo manto estende devagarinho.


Por tojos e alfazemas perfumados
De mimosas e cerejas toucados
Em noites de lua branca suspiraram
Com zimbro agridoce se embebedaram
Mais quatro ramos na rede do amor
Prenderam, transformando-se em flor.


O ciclo da vida foi continuado
No jogo do amor sempre renovado.
As janeiras cantaram pelo Natal
Brincaram na neve p'lo Carnaval.


As raízes, verdes dedos, buscaram
Frescos ribeiros onde mergulharam
Nos esponsais da Terra em explosão
De verdes doirados, na transição
Telúrica quando chega o Verão
Há flores, frutos em plena sazão
Papoilas rubras orlam o caminho
O ar cheira a giestas e rosmaninho
O vale é tapete em que o barbim
É prata e a trama verde sem fim.
Há brincos de rubi nas cerejeiras
E a cidade inteira salta as fogueiras.


Conta hoje muitos anos de idade
Mas está plena de vitalidade
Aguenta chuvas, os nevões e ventos
Sete pequeninos, belos rebentos
Começam a despontar e a florir
A árvore não vai parar de subir
Cada Primavera renascerá
Um hino belo de amor cantará.


Nasceu na Serra, lá na Covilhã
Árvore da vida, raiz beirã.

Maria Ivone Vairinho
(in Livro da Dor
e da Esperança)

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